Psicanálise e antropologia – interseções entre o humano e o não humano.

A relação entre os modos de subjetivação e os aspectos culturais relativos ao tempo é um ponto importante desta investigação. Como ponto de partida, a hipótese de que o sujeito (em seu sentido mais amplo) e seu tempo são indissociáveis. Talvez o louco viva sem seu tempo. Não sei. Todos os outros certamente não, pelo menos não sem serem notados.

A análise dos processos mentais, inconscientes e conscientes pode (e deve) partir da observação de como os sistemas “normativos” de uma cultura são internalizados e reproduzidos nas diversas relações que compõe o tecido social. Os mecanismos de defesa com os quais Freud nos familiarizou, encontram projeção nos rituais de cada cultura, em suas interdições formais ou informais, em seus conjuntos normativos, etc…

Cada sociedade “dá” preferencia a um ou mais desses mecanismos de defesa. Apesar de, de um modo geral, a tradição judaico cristã ter privilegiado um tipo de neurose obsessiva coletiva, a religião, não é possível dispensar os esquemas “fóbicos”, “histéricos”, “esquizoides” e até mesmo “perversos” de funcionamento do sistema que referencia uma sociedade em uma determinada época.

Ao privilegiar a culpa, elemento central na tradição judaico-cristã, Freud talvez tenha deixado de observar os aspectos dissociativos, projetivos, evitativos que outras formas de representação dos modos de subjetivação apresentavam.

A sobreposição da tradição judaico-cristã a outras tantas tradições, encobriu “uma camada extensa” de modos de sustentação de vida com bases ecológicas, éticas e normativas amplamente estabelecias. Sob a superfície, um discurso hegemônico, o religioso, organiza uma “extensa” gama de elementos cuja relação com o discurso, suas palavras e suas coisas se articulam em leis, arte, política, saberes e, principalmente, aquilo que Freud chamou sintoma.

A universalidade do sintoma deve ser pensada em relação à sobreposição. Certamente existem tantos neuróticos em Viena quanto em Salvador, mas é possível que na primeira eles causem menos estranheza que na segunda. Da mesma forma, a facilidade com que as pessoas entram em transe (dissociação) nos rituais de umbanda e candomblé, ou nos rituais dos índios peruanos… deve causar perplexidade em muitos europeus, de Viena. Isso nos faz pensar que a organização mitológica, folclórica e ritualística de cada cultura constitui uma espécie de “repertório cultural da personalidade”, um background.

Como cada cura engendra um tipo idealizado de equilíbrio entre fatores intra e interpessoais, uma forma específica de maturidade, aquilo que pode ser considerado saudável em uma sociedade pode eventualmente ser visto como doentio em outra. Em se tratando de sofrimento psíquico, a equação deve considerar elementos que extrapolam em muito o que acostumamos chamar universal.

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